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Sumário de Memórias e Cicatrizes: Entrevista com Estefanía Porqueras

Atualizado: 29 de ago.

(Por Leonardo Dias)

Estefanía Porqueras “bipou no meu sonar” pela primeira vez em 2020, no olho do furacão pandêmico. Topei com um vídeo de um estudo coreográfico seu em um daqueles momentos de casualidade instagrâmica, e o olho colou na hora. Como de costume quando encontro trabalhos que me encantam, entrei em contato para tietar sem reservas. O fraseado claro e firme e, acima de tudo, o flow do movimento, me intrigaram e encantaram!

Assim, quando soube de sua primeira vinda ao Brasil, em janeiro deste ano, não perdi a oportunidade de conhecer o trabalho – e o ser humano – um pouco mais de perto, na residência que ela conduziu no Tap In Rio. E que vivência rica e maravilhosa foi esta – que lindo trabalho e que incrível ser humano!

Em sua segunda vinda ao Brasil, Estefanía traz consigo a UNUM Project - companhia de sapateado de que é diretora, coreógrafa e bailarina – para nos brindar com o espetáculo Sumário de Memórias e Cicatrizes , (dias 1 e 2 de setembro às 21h no Espaço ao Cubo, em São Paulo - SP), e também com um workshop (ingressos para o espetáculo e inscrições do workshop nestes links). Eu, de cotovelo doendo por não poder estar por perto desta vez, me esforcei para “cavar” esta entrevista¹, como uma maneira de colocar vários questionamentos que me interessam mas, mais do que isso, de estar perto desse momento tão bacana do Tap brasileiro, a saber, a vinda de uma companhia profissional de outras paragens para oxigenar nossos pensares sapateantes.

Muito obrigado, Estefanía e UNUM Project, por esta generosa contribuição aos saberes que tentamos tecer aqui na ILHA!


(Leo) - Antes de mais nada, bem vinda à Ilha! E, enquanto você vem adentrando nossas praias, por favor, apresente-se para nós. Quem é o Unum Project? Como ele começou a existir? Como funciona?


(Estefanía) - Oi Leo! Muito obrigado por promover esta entrevista! Eu sou Estefanía Porqueras e sou diretora, coreógrafa e bailarina do projeto.


Unum Project começou em 2015 como um espaço para eu investigar na conexão entre movimento e som e, mais tarde, em 2016, graças a Guilliam Sons, o compositor musical da companhia, nós pesquisamos o link acústico entre os sons do Tap Dance e as Eletronic Beats, uma vez que a maior parte dos sons do tap facilmente se sobrepõem. ²


Então, o UNUM project é, principalmente, a fusão artística entre Guilliam Sons e eu, mas é claro que não podemos realizá-lo sem o apoio dos maravilhosos dançarinos que tenho trabalhando comigo há vários anos, alguns deles desde o começo! Dois deles viajarão comigo para o Brasil: Gaëtan Farnier e Clara Martínez.

O sistema que uso para criar o trabalho inicia comigo gerando a ideia principal, conceito e dramaturgia. Depois disso, eu peço a música para Guilliam, nós trabalhamos juntos nas composições, e então vem a criação da coreografia e, finalmente, passá-la para os bailarinos.


Eu gostaria de definir o UNUM Project como um espaço para autorreflexão e introspecção das emoções humanas e seus processos internos de natureza social, com a ajuda do Tap Dance, Música Eletrônica Original e Motion Graphics, para que possamos falar sobre estas situações cotidianas que nos mobilizam, agitam ou estremecem e que, de alguma maneira, nos arrastam ou empurram.

Conte-nos sobre o que vai rolar na Tour brasileira que vocês estão para começar. O que a comunidade sapateadora brasileira deve esperar (Estefanía: esta é a sua segunda visita ao Brasil em um intervalo de tempo relativamente curto. Devo entender que você está gostando de passar tempo conosco?) ?

HAHAHAHAHAHAH! Sim! Eu realmente gosto da Comunidade Sapateadora Brasileira. A energia é tão genuína!


Eu acho que a plateia não deve esperar por nada... ? Quer dizer… simplesmente estar de mente aberta e permitir-se ser carregado pelo espaço emocional e pela história… Para uma maior aproximação, estaremos oferecendo um Workshop de Experiência da Companhia, para que se possa apreciar o material e conectar-se mais com os bailarinos e a dança em si.


Eu gostaria de saber mais sobre o trabalho criativo que vem sendo desenvolvido no UNUM Project. Você nos contaria um pouco sobre como surgiu a dramaturgia de Sumário de Memórias e Cicatrizes?

Essa foi “engraçada”… no fim de julho de 2020 me ofereceram um trabalho como curadora de Tap Dance para um teatro de Barcelona. Eu queria começar a temporada tendo o UNUM Project como nova companhia residente do espaço, mas não queria pôr em cena material antigo, então me propus a criar um espetáculo novo. Estávamos a apenas dois meses da data da premiére. Me cocei por dentro para ver o que eu poderia fazer e bolei uma história pessoal. Organizei de uma maneira visual como o processo de tristeza³ e depressão atinge o ser humano, os diferentes estágios e estados emocionais, terminando com resolução e cura. Pedi a ajuda de uma dramaturga para checar se eu estava nas linhas que me propus a seguir, e fiz. A parte engraçada é que eu não estava me dando conta de que eu estava fazendo o que estava fazendo trazendo à vida uma experiência tão pessoal.


Em minha experiência como artista, notei que a técnica do sapateado pode ser tanto ferramenta quanto obstáculo para a criação de dramaturgia consistente. Pode se tornar uma linda maneira de “contar uma história”, mas também pode desafiar o coreógrafo em seu esforço para criar “significado” (o que quer que “significado” possa significar!) Esta é uma questão com a qual vocês tem que lidar no UNUM Project (Ei… estou fazendo sentido aqui?)?

Siiiiimmm, faz total sentido… O sapateado, desde sua origem, tem sido a linguagem da auto expressão e da liberação. Ainda é. Mas eu acho que as preocupações, os detalhes disso, o que temos dentro de nós, o que sentimos e como nos sentimos oprimidos, tudo isso evoluiu. Para mim, o trabalho que impulsiona minha curiosidade para a criação, em especial em meu projeto coreográfico, se baseia na busca pelos elos entre o que eu sinto e como posso dizê-lo com essa linguagem. Principalmente pensando em todo o meu instrumento e não apenas na música que posso criar com meus pés; mais precisamente, como posso sustentar a melodia que meu cérebro ouve enquanto meu corpo expressa o que eu sinto. Quanto mais eu mergulho nisso, mais novos espaços, maneiras de dizer coisas, novas palavras, vão aparecendo. Talvez não seja significativo para o observador, mas me proporciona mais tempo e espaço para conhecer a mim mesma, para ser significativo para mim.


Eu gostaria de perguntar algo sobre as possibilidades que estão abertas para sapateadores profissionais.


Tenho a impressão que os sapateadores no Brasil, em sua luta para tornarem-se bailarinos profissionais, tem de lidar com uma série de problemas, tais como o pouco suporte governamental para companhias profissionais, a falta geral de conhecimento sobre sapateado por parte do público, a questão “online versus sala de espetáculo”, e por aí vai. Também tenho a impressão que as vezes o sapateado é colocado em uma espécie de “não-lugar” (é música? É dança contemporânea? É cultura pop? É velho ou novo? Por que subsidiar uma tradição estadunidense no Brasil? É dança?) que torna mais difícil o acesso ao subsídio público para as artes (a dança contemporânea, por exemplo, tem mais facilidade de acesso a esse tipo de subsídio).


Este tipo de reflexão faz parte da vida do UNUM Project? Que insights você poderia nos trazer sobre todas essas questões?

Creio que este tipo de reflexão é para todo mundo que se relaciona com o sapateado! :) Sinto que em função da abertura da forma de arte, você pode escolher para onde quer ir com ela: grandes palcos de dança, concertos musicais, montagens mais alternativas e minimalistas, performances de rua… Então, uma vez que você saiba para onde você quer ir, creio que fique mais fácil de mirar os subsídios e as plateias, não impossível, mas difícil. E sim, fora dos Estados Unidos (onde eu sei que existem outras questões na oferta de sapateado) é uma questão construir consistência com uma forma de arte que está geograficamente deslocada, mas não é errado. Eu sempre tenho em mente as palavras de Sarah Petronio: “se você quer ser um sapateador, você precisa ser um produtor” (estas não são as palavras exatas), quer dizer, a gente tem que criar o trabalho e confiar no processo. Ainda é cedo para esperar mais receptividade, uma vez que o revival começou há apenas coisa de 40 anos...


Para encerrar: deixo aqui um espaço livre para você enviar uma mensagem à comunidade brasileira do Tap Dance, que está louca para assistir “Sumário de Memorias e Cicatrizes” e estar no workshop do UNUM Project!


Estou muito empolgada em trazer o projeto para o Brasil! Compartilhar parte da minha jornada, oferecer um novo ponto de vista sobre o Tap Dance e mostrar o trabalho que viemos fazendo lá em Barcelona…


Minha mensagem é – não tenha medo de fazer as coisas; quanto mais nós empurramos, mais fácil de as portas se abrirem; então, comece o processo e vá! E, na dúvida, pergunte para aqueles que vieram antes de você, para que você tenhas as referências históricas…

Muito obrigada, Leo, por seu trabalho e paixão, eu amo!



NOTAS:


1: A entrevista foi realizada por escrito, em inglês, e posteriormente traduzida para o português por este que vos fala.

2: Estefania me esclareceu, em conversa paralela, que a sobreposição a que se refere é de frequências sonoras - sons parecidos. O trabalho com a música eletrônica lhe permite "encaixar" os espaços frequenciais do som dos sapatos no todo sonoro de uma maneira que a bateria não permite, por soar em uma região de frequência semelhante à do tap.

3: No original, Estefanía usou a palavra "grief". Perguntei a ela se ela queria dizer "luto", e ela esclareceu não ser este o caso. Ela se refere a uma grande carga de tristeza, não necessariamente ligada às ideias de morte ou perda.

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