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Sobre Sapateado, Som e Significado (Por Leo Dias)

Como performers e coreógrafos, somos habituados, em nosso metiér, a pensar cuidadosamente no impacto visual de cada detalhe de nossas composições (em especial nas coreográficas, mas em alguma medida também nas improvisadas), de forma que estes detalhes convirjam a favor do sentido da obra como um todo. Figurino, maquiagem, desenhos coreográficos, o sentido e evolução dos deslocamentos e focos do olhar, luz, pesquisa de movimentação... treinamos para não deixar nenhum desses elementos "ao acaso". Aprendemos a controlar tudo isso no intuito de canalizar uma mensagem "redonda" para o nosso espectador.


Para os sapateadores esse trabalho é, por assim dizer, dobrado, já que as escolhas de composição têm sempre um aspecto sonoro, além do visual. Compor em tap dance é aceitar o desafio de selecionar um música, sobrepor a esta um outro material sonoro gerado pelos próprios sapatos e tentar destrinchar a complexa relação entre uma coisa e outra. No caso das coreografias à capela, o trabalho não diminui, muito antes pelo contrário: o trabalho de composição musical do coreógrafo se torna ainda mais fundamental.


Dito de forma simples, sapateadores precisam pintar imagens vivas e compor música ao mesmo tempo. Tarefa complicadíssima! Sendo eu músico, meu interesse naturalmente se volta para os aspectos sonoros da composição em tap. Compartilho aqui alguns questionamentos aos quais sempre retorno quando penso nesse tema, sem a presunção de "responder" nada, mas sempre confiante na potência do que cada um pode fazer, à sua maneira, com os pontos de interrogação.

 

1) De que maneira abordo a música sobre a qual escolhi compor?


Será que de uma maneira mais sensorial, sinestésica? Será que adentro a peça musical por um viés intuitivo/sensível, uma abertura à sensação, ao "feeling" da música? Será esta sensação o meu fio condutor? É a textura das melodias, a força percussiva, os picos e vales de intensidade, o claro escuro tenso relaxado da harmonia, o colorido timbrístico... em suma, o próprio material sonoro que me mobiliza para a criação? Ou é o texto? Minha música tem letra? Como relaciono a poesia da música com todos os outros elementos que vou organizar em cena? Mas vamos ainda além: o que esta música significa para o mundo? Para as pessoas que a compuseram? Para as plateias com as quais minha composição vai interagir? Qual o contexto sócio-histórico dessa peça musical? Gosto de aprofundar a pesquisa? Se aprofundo, como essa pesquisa de base interfere no trabalho dos performers? Ou será que, antes mesmo dessa "escavação", é no insight quase clarividente da intuição sobre a música que encontro as "verdades" da minha composição?


2) Como estruturo o discurso musical gerado pelo som dos sapatos?


Como encaixo o som dos sapatos no corpo timbrístico total da composição música + tap? Ao ouvir a música, encontro espaço suficiente na mix de graves, médios e agudos para que os sapatos soem claramente ao somar-se? Em cada momento da música, a composição sonora dos sapatos segue as sugestões do arranjo, complementando-o, sublinhando-o, ou está em contraponto, acrescentando uma informação totalmente nova? Há espaço nesta música para uma informação sonora completamente nova? Que "função musical" o sapato cumpre na soma total? Ele age como instrumento percussivo, ajudando a sessão rítmica a sustentar o groove? Ou segue a linha sugerida pela melodia? Na tradição musical ou na peça específica da música que selecionei, faz sentido pensar em uma separação clara entre base e melodia? Penso na "dramaturgia do som" em consonância com a dramaturgia do movimento, me utilizando na construção do som dos pés de recursos discursivos tais como uma ideia de começo, meio e fim, ou a repetição de motivos, ou um clímax que contraste com o desenvolvimento de uma ideia? E, de novo: construo essa narrativa sonora seguindo a linha desenhada pela própria canção, ou opto por compor sobre a composição opondo-me a ela?


3) Até que ponto estou consciente da potência dos signos evocados pelo som dos sapatos?


Para além da pura sensação causada por cada objeto sonoro em dado ouvinte, estou a par de que estes objetos também trazem o potencial de evocar associações, memórias, significados? Se meus sapatos soam uma ancestral levada afro em 6/8, como será que isso chega nos ouvidos - e no coração - de alguém que se conecta com a religiosidade afrobrasileira? Será que da mesma maneira que chega em alguém de fé hindu, ou budista? Se minha composição é caprichosamente swingada e se vale de um tradicional break do shim sham, ou de um time step clássico, como será que esses ritmos tão conhecidos tocam a sensibilidade do sapateador de 10 anos? E de 15? E de 70? E do brasileiro? E do estadunidense? Se meus pés soam o potente tchum-tcha-tcha do funk carioca, consigo imaginar a quantidade de imagens e associações (tão potentes, tão atuais) evocadas na consciência da minha plateia, fazendo-a gritar e chacoalhar nas cadeiras do teatro? Se subo num palco europeu e meus pés soam a célula do baião nordestino, que lágrimas estarei trazendo aos olhos do imigrante brasileiro que porventura me assiste? Como pensar nessa relação som-significado (que não é diferente da relação imagem-significado, se pensarmos bem) sem medo de utilizá-la em prol da obra mas, ao mesmo tempo, sem macular as tradições e culturas de onde estes memes sonoros brotam e onde se enraízam?

4) Se minha plateia fosse composta unicamente por surdos, como seria minha coreografia?


(Pois então... como?)


Questões girando na cabeça deste inquieto sapateador-músico. Correndo o risco de me repetir, afirmo que... nada afirmo. Confio, sim, na potência dos pontos de interrogação que seguem, como de costume, me mantendo em permanente insatisfação, mas também em permanente aprimoramento.


Tam, tananam, tam... TCHAM TCHAM?


 

Leo Dias é de Porto Alegre. Graduado em teatro pela UFRGS e prof. da rede pública de ensino de Viamão, com muito orgulho! Começou estudos em #sapateado com Isabel Willadino em 1994 e de lá pra cá vem tentando ser professor, coreógrafo e pesquisador da arte do #tapdance. Tem na improvisação seu principal foco de pesquisa e nos estudos musicais sua "outra metade", que vem lhe oportunizando tentar compor trilhas para espetáculos e acompanhar, com sua flauta transversal, grupos de diversas vertentes musicais. É o idealizador do projeto Ilha - Pesquisa em Tap, ao qual vem tentando conduzir. Não pretende parar de tentar nenhuma dessas coisas tão cedo.

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