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O Sapateado Americano e o Pêndulo Dança-Música (Por Victória Napoli)


Se você é sapateador, aluno ou professor de sapateado você já deve ter escutado em algum momento que o sapateador é não só dançarino, mas também músico. A partir de um momento essa frase passou a me instigar muito, me fazendo refletir: o que faz de nós dançarinos e o que faz de nós músicos? O que nos difere de outros dançarinos e de outros músicos?


É fato que o lugar do sapateado no ambiente da dança sempre esteve instável: limitado a uma sala com linóleo, dividida com o balé, em alguns festivais de dança não tendo categoria própria e tendo de participar como “categoria livre” ou, mesmo quando contemplado, tendo de se adaptar a um piso longe do adequado, à falta de microfones ou/e a um júri composto apenas de bailarinos de outras técnicas de dança com conhecimento limitado de música.


Claro que existem exceções, tanto de escolas de dança quanto de festivais (principalmente aqueles comandados/dirigidos por sapateadores), mas não é o foco desse texto. O que quero acentuar aqui é: o sapateado tem suas particularidades no campo da dança, apesar de se encaixar em tal categoria. Todos os nossos movimentos codificados, aqueles que tem um nome e que aprendemos em sala de aula, são acompanhados de som. Um dançarino comum tem de se preocupar com pulsação quando utiliza uma música externa, já um sapateador está tão intrínseco à música, que vem internamente também, que é impossível não se deparar com termos como pulsação, ritmo, compasso, melodia, swing, síncope...


Ok, já sabendo então que o sapateado é uma dança deveras peculiar…Como ele se encaixa no contexto da música, então?


Aprendemos que a música está intrínseca ao sapateado desde seus primórdios, e isso se torna evidente quando surge o jazz e temos sapateadores improvisando com músicos dessa forma de arte, inclusive sendo membros das Big Bands, como músicos.

Temos também exemplos de sapateadores que gravaram álbuns de música onde o sapateado entra como um instrumento. Temos Baby Laurence, com o álbum “Dancemaster” lançado em 1977, e outros exemplos mais atuais, como Sarah Reich e seu álbum “New Change”, além de seu trabalho com o “Tap Music Project” cujo objetivo é trazer o olhar e conhecimentos de música ao sapateado.


Mas o que difere esses incríveis sapateadores que se arriscam no mundo da música de outros músicos? Aqui me apoio em uma citação cirúrgica de Brain Seibert em “What the Eye Hears – A History of Tap Dance”: “[...] um músico dança incidentalmente – remexendo-se para alcançar uma nota, manter a batida – enquanto para um sapateador, os movimentos que fazem a música são desenvolvidos intencionalmente"(tradução minha).


Então, mesmo que se decida buscar mais conhecimento de música e entrar nesses espaços, o movimento não deixa de existir e fazer parte do todo. Assim como, em musicais, apresentações de escola de dança, festivais de dança, etc, mesmo que o movimento e o visual seja priorizado, o som não deixa de existir e fazer parte.


Daí me vem a ideia de pêndulo: de um lado dança, de outro música. Não importa quanto eu vá a um lado, sempre voltarei ao outro. Não importa quanto eu foque na música, a dança sempre estará presente, e não importa o quanto eu foque no movimento e consciência corporal, a música estará também sempre presente. Isso faz de nós, creio eu, nem dançarinos nem músicos: sapateadores. Nesse limbo de dançamúsica, dividido com dançarinos de flamenco, chula, fandango, músicos de percussão corporal, e tantas outras formas de arte que vão muito além do meu conhecimento.


Acredito que seja por isso que a comunidade do sapateado é tão unida, que temos festivais somente nossos, o que não é tão comum em outras modalidades como balé, jazz, dança contemporânea, sempre contempladas nos festivais de dança em geral. Nesse limbo entre uma coisa e outra, acabamos nos apoiando nos nossos iguais. (Talvez seja um próximo passo, inclusive, nos aproximarmos de outras linguagens artísticas que também se encontram nesse limbo... mas aqui já estou divagando).


Encerro então com outra citação de Brian Siebert:


O sapateado torna a música visível, combinando padrões auditivos com formas no espaço. Você pode assistir um vídeo de um dançarino como Buster Brown, desligar o som, e ainda assim praticamente ouvir as batidas. É música para os surdos. E o sapateado também faz o movimento ser audível. Feche os olhos e você pode quase ver a troca de peso. Chame de dança para os cegos. (SEIBERT, 2015, n.p., tradução livre)


SOBRE A AUTORA


Victória Napoli tem 21 anos, é do interior do Paraná, dança desde pequena e sapateia há mais ou menos 8 anos. Esse texto é um pedacinho de sua pesquisa de TCC que está sendo desenvolvida no curso de Dança na Faculdade de Artes do Paraná, cujo objetivo é fazer a falar sobre o sapateado como uma arte interdisciplinar entre dança e música.

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