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IGNIS - processo de combustão (por Fernando Flesch)

Atualizado: 29 de mar. de 2021

A experiência data de dezembro de 2019 e teve como local as dunas da Joaquina, na ilha de Nossa Senhora do Desterro (também conhecida como Florianópolis). Amigos próximos meus sempre souberam da minha admiração pelo trabalho do fotógrafo Bolívar Alencastro, aqui da cidade. Eu percebia em suas fotografias publicadas uma grande sensibilidade, tendo sempre o corpo como protagonista. Paralelamente, na vida, eu sempre tive o meu próprio corpo como uma das maiores incógnitas. Não sei se consigo entendê-lo enquanto uma ferramenta ainda, sendo vários os caminhos que tomo como experimentação para aceitá-lo como tal.


Sabendo da minha admiração pelo trabalho do “Boli”, como costumamos chamá-lo, meus amigos me deram de presente uma sessão de fotos com ele - e eu custei a acreditar que meu corpo seria um dos protagonistas daquele trabalho. Dali, encontramos eu e ele uma data em comum e partimos para as dunas - beirando as 5h da manhã, com alguns elementos que acabavam sendo bem explícitos meus: sapato de sapateado e o tablado.

Insisto em narrar esse processo porque não foi simplesmente um “monte seus cenários e tire suas fotos”. A experiência deve ter tido por volta de três ou quatro horas de duração. O Bolívar provavelmente não entendia profundamente sobre o sapateado, mas isso não intimidou a direção que ele apontou na proposta em qualquer momento. Algumas das ideias que ele tinha trabalhavam diretamente com o corpo e sua vivência do espaço - naquele caso, dos espaços, pois as dunas oferecem possibilidades diversas. Em cada situação que ele propunha, eu realizava movimentações que eu mesmo desconhecia, e isso me faz pensar o quão viciados estamos em uma sala de aula, ou na nossa técnica tão específica. Mais ainda, o quanto esse vício nos afasta de vivências ricas. Andar, correr, pular, circular…


Calçar sapatos, improvisar sobre o tablado. Improvisar mais, e mais, e mais. E ignorar o cansaço, e seguir improvisando até o extremo, e atravessar esse extremo até se perder a consciência do que se está fazendo, e descer o corpo, e buscar estourar o calcanhar batendo contra a madeira, e descer mais o corpo, e se afundar na areia. Explorar os elementos da natureza com o corpo - areia, vento, água, luz do sol… Ir do conforto ao desconforto em um intervalo de tempo e, passado isso, sair do desconforto ao conforto. É sentir na pele sensações reais, tão privadas de nós com a tecnologia, especialmente nos tempos pandêmicos.

Mais singular que os movimentos era o fato de estar sendo fotografado ao realizá-los, isolado da sociedade. Um isolamento, ainda naquele tempo, totalmente voluntário e necessário para desvelar tanta coisa desse corpo. Só a experiência de ser dirigido naquele espaço e nas condições apontadas já me foi o suficiente para compreender muita coisa escondida do meu corpo - como se as fotografias já não fossem o objetivo. Quase entrando num clichê: o caminho foi tão valioso quanto o destino final. Mas de fato, ao fim da sessão, já me sentia realizado.



Isso sem dúvidas não tirou o valor de foto nenhuma, muito pelo contrário: o resultado destas foi excepcional. Foi basicamente ver, em terceira pessoa, alguns recortes do que fora aquela experiência singular. A experiência dessa direção do Bolívar no ensaio que batizei de “ignis” serviu quase como uma alavanca para me tirar de um ciclo vicioso que nós, sapateadores, costumamos viver nos nossos cenários bastante esgotados de atuação. Ignis, em latim, se refere a fogo - como se este processo fosse uma combustão, liberando energia. Só pela simples existência já se faz necessário, sem que necessariamente a energia deva ser empregada em algum lugar.





Sobre o Autor:


Natural de Florianópolis, Fernando Flesch é graduado em Arquitetura e Urbanismo pela UFSC, onde pesquisou sobre o corpo como ferramenta de transformação do espaço. Professor e performista de sapateado, atua hoje na Cenarium Escola de Dança, dirigindo o grupo infanto-juvenil Tap Jr.

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