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Forma e Conteúdo no Sapateado Americano (por Meg Lovato)


De acordo com inúmeras vivencias no sapateado como arte desfrutada diariamente me propus a questionar a montagem de coreografias e nossos processos artísticos.

Sempre que me defronto com o desafio de desenvolver um trabalho coreográfico, além da proposta inicial, me deparo com os seguintes questionamentos: como ecoar no corpo essa expressividade? O que os passos querem dizer? Qual o propósito disso? Como construir o início, meio e fim? Como explorar a criatividade nesse corpo dançante? Lógico, a gente sempre acha uma saída, mas faz-se importante a indagação de tempos em tempos, principalmente em grupos avançados tecnicamente e que, com um repertório de vida, conseguem embarcar junto nessa nau e juntar respostas.


Contar e recontar uma coreografia pode ser um desafio nos degraus suados que queremos subir. Adquirir a expressividade e a interpretação nas partes para formar um todo. Uma equação metonímica e instigante pra quem quer mais do mesmo.


Quando subimos no palco estamos parcialmente prontos, porém somente as várias vezes, ensaios e adversidades encontradas no caminho, sejam elas quais forem, é que promovem “o estar pronto”. Instalados nessa energética caixa preta, que aguça a nossa existência, o “get ready” se faz presente, mas parte disso fica ainda melhor se conduzimos o trabalho fora dela. O prazer, o desafio, a adrenalina, o “acertar”, fazem do sapateador o artista andarilho do próprio aplauso, acredito eu.

Independente do jugo alheio, mesmo sabendo que estamos nos comunicando com algo ou alguém, acredito que as ferramentas mais humanas podem e devem nos ajudar na organicidade desse corpo percussivo do sapateador.

Não falo de estilo e sim de como preservar a integridade desse corpo dançante e aumentar suas possibilidades artísticas.

Beleza, técnica, limpeza, fazem parte do conceito de toda boa aula, mas confiar em amigos para expor seu trabalho com visões artísticas diferentes da sua (artes cênicas, músicos, bailarinos de outros estilos) foi importante no meu último trabalho e acrescentei nessa pesquisa critica.


Outro ponto foi recorrer a exercícios simples, mas que garantem a entrega na execução da coreografia. Por exemplo: separar células rítmicas e deixar cada sapateador num canto da sala em própria conexão com o que está fazendo, estudando a fluidez do seu corpo ao executar o exercício inúmeras vezes, numa espécie de catarse e entrega com o objetivo de vir à tona sua melhor resposta, para ele mesmo, diga se de passagem.


Ouvir a música bem alto e bem baixo sem sapatear, mas senti-la dos joelhos pra cima e pensando onde o sapateador poderia estar se apresentando, por exemplo, na orla de Copacabana ou dentro de uma caixa de fósforo - exercício bem difícil, já que nos concentramos nos passo - ouvir e ver o outro na sua singularidade, criar ambientes claros e escuros de modo que o grupo sinta uma interferência na sua comum ambientação, aquecer os cinco sentidos seja em atividades simples como bater palmas, lavar o rosto, aromatizar a sala de aula, abrir e fechar a boca enquanto se anda pela sala e escolher, identificar pausas e, por fim, uma roda da conversa sobre o trabalho de caráter investigativo e sem defesas estabelecidas. Um “Therapy Tap”.

Dados esses exemplos, verifiquei que trabalhos em grupos podem alcançar saltos e em cada salto a mesma coreografia que se apresenta “igual” muda e cresce, afinal, já dizia da Vinci que uma obra nunca está pronta - acredito nisso também.

Enfim, estudar sempre faz de nós; alunos e professores; seres vivos bebendo na história de nossa arte, a genuína identificação.

Obrigada.

Meg Lovato

Meg Lovato é formada em Comunicação Social, e atua há 25 anos como sapateadora, mestra e coreógrafa. Enfoca as técnicas do sapateado (Rhythm Tap) em todo seu seu alcance.

Especializou se aqui e em Nova York, Buenos Aires e Paris.


Participou de encontros internacionais (Tap Intensive ATDO e Tradition in Tap) e aulas com os mestres: Brenda Bufalino, Tony Waag, Margareth Morisson e Barbara Duffy.


Foi Coordenadora Geral do musical infanto-juvenil: “Se meus pés falassem...”


Atua em várias academias do interior do estado de São Paulo.

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