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Estudar Sapateado: "!" "?" "..."

Calço meus sapatos de Tap e me enfio numa sala de dança por algumas horas batendo o pé. Digo para mim mesmo: "Hora de estudar. Estudar é importante!

Esses dias me caiu a ficha de o quanto essa afirmação - hora de estudar! - deve soar bizarra para um desavisado, vinda de alguém que está usando a dita hora para nada mais que bater o pé freneticamente e suar até encharcar a camiseta. Fiquei imaginando as mil perguntas na cabeça do Sr. Desavisado, o que me levou a fazer eu mesmo outras duas mil.

Hora de estudar! - diz o sapateador, solene (eu, no caso). Mas isso é estudar? Afinal de contas, ARTISTA ESTUDA? Isso não é "só praticar"? Existe diferença entre estudar e praticar? A palavra praticar remete, pelo menos um pouco, à repetição exaustiva de algo que se quer aperfeiçoar. Claro que o métier do sapateador - do bailarino, do músico, do malabarista, e por aí vamos - é feito, sim, de aperfeiçoamento pela repetição... mas quando me tranco em uma sala para sapatear, é mesmo só repetição o que faço? Veja bem: Testo ideias. Procuro formas de transformar meu repertório de movimento, de ritmo. Pesquiso outros bailarinos, "antropofagizo" seu estilo e repertório. Ouço músicas de diferentes vertentes e tento reagir apropriadamente a elas com meu sapato. Teorizo sobre a melhor forma de ser comunicativo dentro da linguagem que estudo (ha!). Então: para além da repetição que aperfeiçoa o que já existe há a absorção de material externo, e há criação... tudo isso enquanto a camiseta vai pingando...

Okay. Então o sapateador que entra na sala para praticar não sai do mesmo modo que entrou. Mas, ainda assim... estudei? Semântica... palavras gastas. "Estudar" remete, de alguma forma, a um conhecimento livresco, não? E, por sua vez, tem alguma coisa em nosso sistema de crenças que afirma e reafirma que este conhecimento feito de palavras e conceitos é "O Conhecimento". Dito isto: o processo que descrevi acima me acrescenta conhecimento?

A pergunta ganha peso quando considero minha posição como professor da rede pública, na qual me deparo com levas e levas de crianças que associam a palavra "estudar" com memorização de palavras escritas - só. Já a palavra "conhecimento" elas igualam a "algo que está no livro e não em mim". Talvez seja a própria dureza de percepção que essas crianças me mostram (que é culpa exclusiva desse sistema de educação sórdido do qual eu, por sinal, faço parte) a causa dos meus questionamentos. Vou além: na cabecinha delas,"estudar" é algo "muito importante" embora seja "sofrido e obrigatório", e isto porque "meus pais disseram". Então: Estudo = sofrimento= algo importante mesmo que eu não saiba de fato o por quê. Consideremos desde já excluídas a curiosidade e o prazer do processo de conhecer. Mas o que é conhecimento mesmo?

Opa: aqui eu "pesei a mão". Sei que a pesquisa na área é extensa e muito importante. Nem me arrisco. Vou limitar a minha pergunta: Porque minha prática me conduziu a um aumento do meu repertório sensível, musical, rítmico, corpóreo, em lugar de ampliar meu rol de conceitos abstratos, isso significa que eu não aumentei conhecimentos - não "estudei"? O que leva a outra pergunta: existe algum conhecimento que seja, de fato, descolado do corpo? Há como fazer uma interferência no corpo que se move e isso não alterar a psique como um todo, no que ela tem de emoção e cognição inclusive? O corpo que sente não é um lugar de conhecimento e formulação da realidade tão válido quanto o raciocínio formal?

E por que não ir além: qual o objetivo de estudar, afinal de contas? Com que finalidade se quer aumentar o rol de conhecimentos - seja lá isso o que for? Volto aos meus alunos: Eles não "estudam" por prazer e curiosidade. Também não "estudam" porque conseguem ver finalidades pragmáticas nos conteúdos. Estudam... pra que mesmo? Pra não apanhar dos pais, pra que estes não sejam pressionados pelo conselho tutelar, na melhor hipótese pela quimera do "ser alguém na vida" e para não ter problemas burocráticos em seu esforço por entrar o mais rápido possível no esquizofrênico sistema em que vivemos, mesmo que isso não faça sentido nenhum pra eles (lá no fim da linha eles recebem um diploma que fará, sim, uma enorme diferença no que se refere à capacidade de sobreviver na selva de pedra, e todos damos graças a Deus quando ganhamos esse canudo. Mas, francamente, passar a infância e a adolescência toda acreditando que toda a finalidade da curiosidade humana é esse canudo é uma tragédia...)

E no entanto, se eu me enfio numa sala sapateando, ou o meu aluno descobre 28 aplicativos para fazer divertidos vídeos sobre insetos bizarros que ele vê nas árvores, ou a menina faz Le ParKour e conhece a cidade através de um olhar vivo de uma riqueza que eu nem consigo imaginar, e se esses saberes mudam completamente nossa atitude perante a vida, em todos os sentidos, definindo nossa interação com o mundo... bueno, CADÊ A NOSSA NOTA DEZ POR ESSES SABERES? VAI DIZER QUE NÃO ESTUDAMOS?

Evidentemente tenho minhas respostas experimentais para todas essas perguntas... mas acho que as pergunta produzem mais que as respostas no quadro maior. Tenho um respeito GIGANTE pela palavra "estudar" ( e talvez esse texto seja uma forma de resgatar um pouco o significado dela, coitada, tão maltratada) e pelos maravilhosos artistas que me ensinaram e me ensinam sempre a importância do estudo como uma disciplina quase ritual... para que eu tenha uma mente saudável, uma arte potente e verdadeira, para que eu defina minha posição no mundo, para que eu seja feliz. Como de hábito, fica aqui a saudação aos meus mestres (pelo menos alguns deles!). Franco Salvadoretti, Nicola Spolidoro, Valéria Pinheiro, Marchina, Isabel Willadino, Juliana Prestes, Giovani Cappelletti, Leo Brachth... nossa, como eu sou mais inteiro por ter conhecido vocês! Quem respeita o estudo, por certo saberá respeitar os mestres, né?

Chega. Hora de estudar.

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