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Do Zen ao Tap e de Volta

Levanto de minha posição sentada, em que meditava, já pensando em sapateado. Que fazer? São muitos anos de prática. Estou encharcado até os ossos de Tap Dance.


Agradeço ao cosmos pelo breve momento de paz que a meditação - exercício de comunhão com o agora-infinito, em que se tira os pés, nem que seja por um minuto, da furiosa correnteza das ilusões cotidianas - e os paralelos com a prática solitária, sobre o tablado, são inevitáveis.


Quantas vezes, ao calçar meus sapatos para praticar ou dar aulas, volto um pensamento para (escolha o nome, eu chamo de Vida, Cosmos, Luz... varia bastante) e agradeço por "mais um dia sobre as tábuas"!


O contato do pé com o couro e deste com o metal, terminando na tábua. Todas essas mediações excitando minha sensibilidade através da sola dos meus pés, que não apenas sustentam mas direcionam, equilibram, orientam meu corpo com sutilíssima inteligência... e este corpo que agora não pode mover-se sem dizer algo em forma de som... esse corpo ampliado, em que o contraste entre silêncio e som se torna gigantesco... tudo isso me traz para dentro. É como sentar e atentar para a respiração. Talvez seja até mais intenso, porque a materialidade do ato de sapatear amplifica todos os sinais do meu corpo - os que emito, os que percebo.


Então, eis-me dentro de mim. E agora? Que passo, ritmo, impulso, vai iniciar minha conversa? Com quem converso? Quando, sozinho na sala de dança, articulo todos esses ritmos, de que lugar insuspeito vêm eles? Se a conversa que tenho é comigo mesmo, por que é que sinto-a tão completa, tão inteira, como se estivesse sendo ouvido e compreendido pelo mais amoroso dos corações?


Será este coração o meu próprio, na medida em que a batalha com esta sutil e complexa técnica do Tap Dance - pedra dura de lapidar, em que força e delicadeza precisam estar tão harmoniosamente equilibradas - acaba por rachar as bobagens do ego, trazendo humildade e, por fim, auto aceitação?


Porque se você treinar tempo suficiente, você não mais será. O sapateado é que será através de você. E isso sim, talvez, e apenas talvez, possa trazer algum vislumbre de um "eu" que valha a pena conhecer. Um eu que não se faz objeto de postagens de instagram e discursos de auto importância. Um eu que é simplesmente um ser humano todo suado, mediado por tábua no metal no couro na pele que sente.


Este eu talvez não seja tão diferente daquele que senta de pernas cruzadas e, de tanto prestar atenção tão somente à respiração, acaba por dar-se conta que pouco mais é necessário na vida do que respirar.


In... Out... In... Out... um... dois... um... dois...




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