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Chapas Encantadas (por Tony Taps)

Fevereiro é um mês frio e nublado para os habitantes do hemisfério norte. Nosotros de abajo desaguamos por todos os poros as ruínas do sul — colhidas as lágrimas e o suor em gamelas imensas, filtramo-nos os fluídos e os transformamos numa deliciosa e vaporosa bebida que nos põe em outro estado de consciência. Muitos a conhecem como Carnaval, a festa; alguns se banham nela, outros a sorvem.


O mês chegou e, ainda aprisionados no ano da infâmia, vimos a apresentação da célebre, celebrada e cerebral sapateadora estado-unidense, Dormeshia Sumbry-Edwards derreter todo o gelo ao redor ao percutir sútil de seus sapatos dourados. Oito minutos de uma dança que foge aos cálculos, apesar da contagem, da métrica, da regra, do pulso. Feitiço e magia que encantam o tablado, a audiência, as chapas.


Sou uma dançarina de sapateado principiante e que, até outro dia, passava pela frente da Congo Square sem escutar nada e ignorava movimentos, ta-ka-ti-kas e outras síncopes. Tropecei numa placa e lá e meus olhos reviraram todos os quadrantes do círculo trigonométrico, as pálpebras tremiam-se em sono pesado e quando os abri deslindou-se junto um universo paralelo e que sempre esteve ali.


Perdoem-me o fraco trocadilho, porém os primeiros passos palpitam até hoje e os dei na incerteza de quem descartou tudo chão sólido para se lançar no abismo e voar. Esta é a habilidade que almejo, precisamente neste tempo e divisão rítmica, alcançar com o sapateado: a possibilidade de voar. Como Dormeshia faz percorrendo o palco inteiro sem descolar o pé do chão, mas muito alto e suspendendo toda a física.


Os pés guardados pelos sapatos d’ouro vibram e lambam um de frente ao outro e num close up é como se Dorothy acionasse a mágica secreta e retornasse ao Kansas. No place like home. O descanso e sossego após longa jornada. É o caminho aberto pelos passos bem guiados que Dormeshia nos embala.


Inebriada pela charla fervente dos pés da sapateadora e do burilo consistente do percursionista Gabriel Roxbury em seu djembe, sinto o perfume de minha mãe rodopiando pela sala. Estou em casa e o mundo gira tão veloz que tudo diante de mim fixa-se naqueles movimentos precisos e bailantes de Dormeshia. É um sonho? Não, é estar-se em si neste presente.


(Publicado originalmente no blog Toda Terça Tem Tequila, em 18 de fevereiro de 2021)

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