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A Árvore do Tap - Aula 02: Ousadias Teóricas

Um ensaio sobre possíveis bases teóricas sobre a relação entre improvisação e jogo. Sobre a conexão entre foco claro, ansiedade e espontaneidade no contexto da improvisação.

Imagem: Rafael Matos

Imagine-se na roda de improvisação (seja ela de sapateado ou não). Chega a sua vez e o orientador da dinâmica (se houver um) simplesmente diz:


- Vai!

- Mas vai onde?

- Faz o que você quiser!

- Mas o que que eu quero?

Poucas coisas são mais desorientadoras – e, no fim das contas, frustrantes – do que a frase "faz o que você quiser" dita em um ambiente em que há outras pessoas partilhando ansiedades, expectativas e vergonhas. A pressão do olhar alheio, somada à falta de um ponto de referência para iniciar a ação, são verdadeiramente paralisantes.

O fato é que o improvisador que sai "simplesmente arrasando" é aquele que já conhece tão bem as regras e possibilidades do jogo que consegue se organizar sem a ajuda de indicações externas, de um orientador, por exemplo. Esta autonomia é o (pretensioso) objetivo final de um estudo em improvisação.. Mas acredito que ela deva ser construída aos poucos, através de dinâmicas com objetivos e restrições claramente definidos. Assim, o jogador, em vez de perder-se em uma névoa de possibilidades vagas, concentra-se em resolver um problema de cada vez, dentro das regras propostas. O foco sai da ansiedade autocentrada e se dirige à atividade, o que a torna muito mais agradável, descentrada do ego e proveitosa em termos de aprendizado.

Fui introduzido à ideia de que as atividades de improvisação devem ter um foco (ou ponto de concentração) através da obra de Viola Spolin – mais especificamente, de seu clássico Improvisação Para o Teatro. A pesquisa de Spolin é um dos principais referenciais do uso da improvisação na educação teatral. Seu trabalho é constituído por uma coleção de jogos e atividades que visam o desenvolvimento progressivo das habilidades do ator, embasada em sólidos pressupostos filosóficos (a influência da autora em minha busca é evidente):

"A apresentação do material de uma forma segmentada libera o jogador para agir em cada estágio de seu desenvolvimento. Esta apresentação divide a experiência teatral em unidades tão mínimas (simples, familiares) que cada detalhe é facilmente reconhecido e não assusta ninguém. No início, o Ponto de Concentração pode ser a simples manipulação de um copo, uma corda ou uma porta. Ele se torna mais complexo a medida em que os problemas de atuação progridem, e com isso o aluno-ator será levado eventualmente a explorar a emoção, o personagem e eventos complexos. "(SPOLIN, pg 21)

Tão importante quanto o conjunto de atividades que ela propõe são os princípios sobre os quais estas se desenvolvem. Dito de forma simples, a autora parte do pressuposto de que os exercícios de improviso devem ser jogos com "regras" – objetivos e restrições – claramente definidos, que constituem o que ela denomina de ponto de concentração. O ponto de concentração contém em si o foco pedagógico do jogo – no caso, qual "segmento" do fazer teatral está sendo trabalhado naquele momento. Além disso, ele possibilita que surja a espontaneidade, uma vez que não há formas certas ou erradas de cumprir o objetivo. A inventividade está justamente em criar formas de solucionar o problema. Por isso mesmo, a inventividade é catalisada pelo problema.

"O ponto de concentração age com fronteira adicional (regras do jogo) dentro da qual o ator deve trabalhar e dentro da qual uma série constante de crises deve ser enfrentada. Assim como o músico de jazz cria uma disciplina pessoal permanecendo no ritmo enquanto toca com outros músicos, assim também o controle no foco propicia o tema e desbloqueia o aluno para trabalhar com cada crise, na medida em que elas aparecem." (SPOLIN, pg 22)

Assim, a sequência de atividades proposta pelo livro inicia em blocos elementares, tais como "ouvir", "ver", "pegar", sobre os quais são construídos jogos e desafios, até chegar a conceitos mais complexos, como fisicalizar coletivamente em cena um lugar ou uma situação.


De forma semelhante, procuro organizar meu pensamento sobre a prática da improvisação em uma tentativa de segmentar o imenso corpo de conhecimentos que constitui o sapateado americano (excetuando aqui o aprendizado da técnica em si, tal como a correta execução de shuffles e pullbacks, que não é o foco deste texto), buscando identificar seus blocos elementares e fazendo de cada um desses blocos o ponto de concentração para diferentes atividades lúdicas. A medida em que o estudo prossegue, as atividades vão crescendo de complexidade, e vão integrando os aprendizados das atividades anteriores em unidades mais complexas, sempre vendo no jogo um meio para a aprendizagem, mas ao mesmo tempo um fim em si, já que "jogar é bom". Assim, rudimentos do conhecimento musical, tais como "andamento", "contagem" ou "acentuação" se tornam motes para atividades de convívio, troca, aprendizado, autoconhecimento, dentro da viva interface que só o jogo proporciona.

Faz mais de vinte anos que venho fazendo experiências práticas nas turmas em que dou aula, no ensejo de explorar estes questionamentos e de criar ferramentas práticas que possam ser usadas por qualquer pessoa que deseje aprender a "brincar de sapatear improvisando". Ao longo desse tempo me dei conta de algo que me pareceu crucial e básico: As habilidades e conhecimentos necessários para se improvisar fluentemente em sapateado são, simplesmente, as mesmas que qualquer sapateador precisa desenvolver, mesmo em contextos de coreografias ou exercícios memorizados (aquelas que começamos a enumerar acima: divisão rítmica, acentuação, etc). A diferença está em que estas habilidades precisam, no caso da improvisação, ser compreendidas, conscientizadas e ativadas a um ponto tal que se possa usá-las com liberdade e eficiência em tempo real, sem planejamento prévio.

Fazendo uma comparação superficial: digamos que você queira aprender a dirigir "coreograficamente". Você memoriza: virar a chave, dar a partida, pé direito no acelerador, esquerdo na embreagem. Indo para casa: avanço 800 metros depois giro o volante para direita em um ângulo de 90 graus... e assim por diante. Para pegar o carro e ir para sua casa você "coreograficamente" memoriza todos os movimentos que deve fazer.

Só que o seu carro lhe possibilita muito mais do que isso! Para ir para qualquer lugar a qualquer tempo que desejar, você precisará ser menos "coreográfico". Terá de compreender intimamente o que é dirigir, ter um bom senso de orientação, estar inteirado de como funciona o carro em si... todos estes conhecimentos lhe permitem tomar decisões rápidas em tempo real, alterar o trajeto e a velocidade sem maior premeditação... porque você entende o que é dirigir, para além da memorização de uma mera sequência de movimentos.

Um outro paralelo (que tomo aqui emprestado de Acia Gray, em seu excelente livro intitulado The Souls of Your Feet, e transcrevo em minhas palavras): Você pode perfeitamente memorizar e repetir, a partir do som, uma frase em uma língua estrangeira, sem necessariamente compreendê-la. Mas verdadeiramente falar a língua, sendo capaz de expressar-se com fluência e flexibilidade, requer, além da memorização, conhecer sua estrutura, sua cadência, seu simbolismo, muito mais a fundo.

Se estes paralelos foram suficientemente claros, fica óbvio o "pulo do gato": exercícios baseados em improvisação são úteis para qualquer sapateador, quer ele improvise, quer não. Por quê? Porque lhe permitem compreender intimamente como o sapateado funciona, dando-lhe uma propriedade muito maior para, inclusive, interpretar coreografias ou criar exercícios técnicos.

Com essa "intimidade" vem também um prazer de sapatear muito maior, já que este entendimento mora, em grande parte, no próprio corpo. Quando você verdadeiramente entende o sapateado, seu corpo flui para dentro da dança com muita liberdade, e esta é uma sensação absolutamente maravilhosa...

Esta sensação – de liberdade, de fluência, e de poder me expressar de forma intensa, essencial, direta – é que me faz morrer de amores pela improvisação em sapateado americano. Esta reflexão é fruto daquela primeira necessidade, citada algumas linhas atrás: a de partilhar sapateado. Justamente esta palavra, partilha, me leva à ideia que é, a um tempo, o ponto de partida e a finalidade última de minhas aulas de improviso: o jogo, com tudo que ele traz de possibilidades de estados d'alma e troca com o outro.

Quiçá eu possa, assim, colaborar de alguma forma para que você também possa sentir que seu sapateado é livre, transparente, que vem de dentro de você! Isto seria um privilégio e uma honra para mim, e eu ficaria muito feliz de ter mais alguém para partilhar esta paixão comigo.

E então? Pés à obra?

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