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A Árvore do Tap - Aula 03: Quebrando o Gelo

Sobre como a árvore não cresce se o medo estiver em suas raízes. Um exame das espécies de medo que comumente parasitam os rizomas de sapateadores.


Partamos da constatação óbvia: quando o professor de sapateado diz a palavra "improvisação" em uma aula de, especialmente quando a turma tem pouca ou nenhuma vivência de improviso, o efeito mais comum é uma onda de pânico, evidenciada por comentários defensivos, pessoas movendo-se em direção às paredes da sala, procurando sem sucesso lugares para se esconder, suspiros e expressões de medo. Sim ou não?


Por quê? De que é que temos tanto medo?


Não tenho a formação adequada pra fazer uma análise psicológica do fenômeno. Mas, embasado nas ferramentas de que disponho – a experiência de ter presenciado essa situação incontáveis vezes, a reflexão e também uma certa dose de sensibilidade - cheguei à conclusão de que a resposta para a pergunta acima vai mais ou menos nessa linha: ninguém quer se sentir exposto. É bastante paradoxal. Sentimos a necessidade de nos expressar (e por isso procuramos atividades artísticas!) e ao mesmo tempo temos medo de fazê-lo. Cada um lida com isso à sua maneira, com maior ou menor dificuldade. Há os que simplesmente fogem. Há os especialmente hábeis, que conseguem alguma segurança pessoal escondendo-se atrás de uma super performance – o que não implica necessariamente em expor-se. Há os que tentam diluir a sensação de singularidade, de exposição individual: "camuflado" em uma coreografia em que todos dançam os mesmos passos, ou fazendo mais ou menos os que os outros estão fazendo na hora de improvisar, o indivíduo está relativamente disfarçado, além de protegido por decisões tomadas por outras pessoas.


O coletivo dá uma sensação de proteção. A autoridade externa (diga o que devo fazer!) também. Mas na situação de improviso, bem... é você por você mesmo! Você fará "o que quiser", e estará no centro das atenções. Desprotegido. Nu! E se você "errar"? E se não for bom o suficiente? O que é que os outros vão pensar? Estes são sentimentos com os quais convivemos, que todos nós sentimos em maior ou menor grau. Acredito que reflitam expectativas distorcidas que temos a respeito de nós mesmos, e que projetamos no olhar do outro. A ansiedade causada pelo sentimento de insuficiência é conhecida por todos nós e, ao meu ver, é especialmente intensificada por uma série de crenças generalizadas de nossa cultura, tais como o exagerado valor dado ao sucesso (o que é sucesso?), a noção de que temos que ser super-heróis, e mesmo a ideia de que a arte é feita por pessoas ditas "especiais". Embora este aspecto particularmente daninho de nossa cultura não seja exatamente novidade, nunca antes, pelo menos de acordo com minha percepção, ele foi tão intenso quanto hoje. Somos bombardeados vinte e quatro horar por dia, nas redes sociais, por "modelos de sucesso", pelo "bom", pelo "bonito", o "belo", o "perfeito", o "melhor que", e que, naturalmente você "precisa". Precisa o que? Ser. Ou... comprar. Os dois verbos andam tão intimamente associados ultimamente!


E eis que mais um paradoxo se instala: a falsidade, a falta de verossimilhança dessa representação da realidade, é tão evidente que nos nauseia... mas isso não nos impede de desenvolver inumeráveis formas de ansiedade. Na esteira deste processo, vamos também nos alienando de partes enormes e essenciais de nós mesmos – aquelas que associam-se ao "erro", ao "imperfeito", ao "inacabado" e, por conseguinte, ao "real". Porque o que pode ser mais real, tanto na vida como um todo quanto no indivíduo que somos, do que esta tentativa constante de equilibrar opostos e de lidar com forças e fraquezas, erros e acertos, luz e escuridão, sucesso e falha? E o que somos, no fundo, senão nossa maneira muito particular de colocar todos esses elementos em equilíbrio?


Dito isso tudo, fica claro que se trata de muito mais do que improvisação em sapateado americano. Trata-se da "cara" do nosso tempo, que tem o cenho franzido numa expressão permanentemente crítica em relação ao "erro". Em um tal cenário, quem se sentiria confortável para aventurar-se nas incertezas da improvisação?


Mas espere... caro autor! Você acaba de usar "erro" entre aspas, e não foi a primeira vez neste texto. Você está querendo dizer que, em arte, não existe erro? Não precisamos nos preocupar com o equilíbrio formal, boa técnica, precisão rítmica? Essas coisas não tem valor? Então, por que estudamos tanto? Por que tanto esforço?


É uma objeção justa! Procuro lidar com ela fazendo a seguinte reflexão, que não é estranha a nenhum professor: o erro é simplesmente o caminho do acerto. Em um processo de composição – seja esta uma música, uma coreografia ou um quadro... tanto faz! - o caminho do erro e do acerto, da lapidação e das muitas revisões e reformulações, se dá previamente ao momento em que se deu a obra por acabada e se deu a mesma a ver por outras pessoas. A pessoa que está compondo possui uma visão interna, uma sensação, uma imagem do que gostaria de fazer, e vai usando os "tropeços" como forma de aprimorar a forma final, ora suprimindo-os, ora absorvendo-os. É uma relação com o tempo que se dá no "antes", e que tem por finalidade "a obra". Esta poderá ser, sim, criticada em termos de sua adequação formal ou excelência técnica, dentro da estética em que se enquadra (o que não impedirá, de qualquer maneira que, a despeito desta crítica, cada indivíduo se relacione com ela de maneira única. No entanto, na arte improvisada, a relação com o tempo é outra. O improviso é o terreno do "agora" e do "fluxo livre". O objetivo aqui não é, pelo menos prioritariamente, o acabamento formal, e sim a maneira como a forma artística permite que o artista expresse o que se dá em seu interior naquele exato instante.

Particularmente, penso que a improvisação tem seu valor na medida em que o improvisador consegue este contato consigo mesmo e se permite expor aquilo que descobre nessa viagem interna. Assim, o olhar para aquilo que ele faz deverá ser de uma outra ordem, mais relacionada com a contemplação do momento vivo e real oferecido pelo artista, do que com parâmetros externos do que ele deveria ou não fazer para "acertar".


Dito isso tudo, penso que é possível, sim, trabalhar a improvisação em sapateado, como qualquer outra técnica de arte, tendo em vista um aprimoramento gradual da performance. Aliás, por que não desejar a evolução técnica, na medida em que ela deixar mais cristalino o nosso canal de autoexpressão? Como professor e como artista, tenho meu primeiro interesse na exploração deste lugar em que a técnica está a serviço do prazer expressivo, da espontaneidade, da verdade interna, da troca com os demais. De forma resumida: menos o que se mostra, mais o que se vive. Menos o desempenho, mais o prazer de ser. Creio que esta busca é o que justifica o trabalho de improvisação de sapateado com alunos em sala de aula: o intenso prazer de expressar-se e comunicar-se em um nível sensível. Só que para esse prazer chegar a acontecer é preciso, com muito cuidado, respeito e sensibilidade, ir quebrando essas camadas de bloqueio que, em alguma medida, todos carregamos. O prêmio pelo esforço é um encontro muito íntimo e prazeroso consigo, e com o outro também. Ademais, acho importante discutirmos este tema desde o primeiro momento. Pouco se conseguirá em termos de trabalhar técnicas e conceitos mais complexos de improvisação com uma turma ou aluno que não está se sentindo à vontade para experimentar, errar, e vivenciar os tropeços do caminho de forma despojada, como uma parte natural do processo.


Mas... como fazer esta mágica? Me faço essa pergunta repetidamente, e a conclusão a que chego é que cada aluno, turma ou situação me exigirá uma resposta diferente. As ideias que se seguem são algumas das respostas empíricas que fui formulando para o desafio de deixar meus alunos gradativamente mais confortáveis durante as improvisações. De certa forma elas apontam para o que o improviso significa de mais profundo, pelo menos para mim: brincadeira, confraternização, comunhão consigo e com o outro.


1) Quebre o gelo!


Maud Arnold. Tap in Rio, 2017. Pediu que os alunos da turma se reunissem em duplas e sapateassem, improvisando, um de frente para o outro, olhando nos olhos. Era possível ver a tensão nos músculos do pescoço e rosto das pessoas. A dificuldade em olhar nos olhos, a tensão e a ansiedade, eram evidentes.


Então ela mudou a instrução: TODOS COM OS BRAÇOS ESTICADOS, PARA CIMA! AGORA, DANCEM DE NOVO!


O efeito foi hilário. Era tão absolutamente hilária a cena daqueles braços erguidos sobre pés sapateantes que todos começaram a rir de si mesmos e uns dos outros. Que inteligente: ao fragilizar todos ao mesmo tempo, Maud fez todos iguais, desmontou pretensões a desempenhos brilhantes... em suma, quebrou a tensão..


Ao final ela disse: - Foi ótimo. Vocês estavam se sentindo tão engraçados que sorriram o tempo todo e esqueceram do que o pé estava fazendo. Foi muito mais vibrante, muito melhor de ver! Lição guardada: introduza o humor, algum elemento que lembre a todos de não levar-se tão a sério, e ajude a quebrar a tensão. Afinal de contas, tem de ser prazeroso!


2- Evite o "faça o que quiser".


Use exercícios com instruções claras e objetivos concretos. Quando você diz "improvise aí, faça qualquer coisa", a reação mais comum é a de gerar desamparo, ansiedade. O foco do aluno se desloca geralmente para a autocrítica. Por outro lado, se você estabelece alguns caminhos, restrições ou objetivos que "limitem" essa "liberdade", a exploração da criatividade pode acontecer de forma mais gradual, de forma que a segurança em relação ao que se faz possa ser construída aos poucos.


Dar um objetivo específico aos alunos ajuda-os a pensar menos em si e mais no que estão fazendo. Isso gera um efeito tranquilizador: o aluno para de fazer críticas vagas e imprecisas ao próprio desempenho (Tô feio! Tá ruim!), e passa a simplesmente a avaliar se conseguiu ou não conseguiu atingir o objetivo naquele momento. Muito menos ansiedade envolvida. Por exemplo: em dado jogo, o objetivo é "conseguir cruzar a sala fazendo sons ininterruptamente com os pés". Pronto: é dado um foco para o exercício, por mais simples que seja, e o aluno pode concentrar-se em vencer um desafio específico, claramente estabelecido, em vez de estar centrado na ansiedade de estar "livre". Além disso, selecionou-se uma competência específica a ser trabalhada – no caso, o deslocamento pela sala.


Chave: o aluno precisa deslocar o foco de si mesmo para aquilo que está fazendo! E isso fica bastante mais fácil se ele tem um objetivo a cumprir.


3 - "Camufle" os indivíduos no grupo.


Quaisquer atividades de improvisação feitas por todos os participantes ao mesmo tempo trarão menos ansiedade do que aquelas em que uma pessoa joga de cada vez. Use isso a seu favor, e vá sentindo a turma, colocando os indivíduos em evidência apenas na medida em que você os sentir confortáveis para isso (ou, pelo menos, desejosos de enfrentar o desconforto). É muito importante, no trabalho com improvisação, manter-se alerta às reações dos alunos às propostas que você traz. Pressionar um aluno a fazer algo que ele não se sente confortável em fazer em dado momento pode gerar um bloqueio irreversível! Especificamente, se você propuser um jogo em que há improvisos individuais, e algum aluno recusar-se a participar, não o pressione e não permita que a turma o faça. Cada pessoa tem seu tempo!


4 - A Escuta Interna


As mesmas considerações podem ser feitas a respeito de seu treino individual. Porque somos seres humanos, sensíveis, mutantes, em fluxo, não estaremos nos sentindo da mesma maneira todos os dias. Sinto que, no trabalho com improvisação, é importante desenvolver esta escuta interna, compreendendo que haverá dias em que você estará disposto a desafiar os próprios limites, enquanto em outros dias você desejará simplesmente estar confortável. Em alguns momentos você se sentirá estimulado por exercícios que demandam precisão rítmica e uma intensa atenção aos detalhes enquanto, em outros, preferirá exercícios com um caráter mais sensível e livre. O essencial, na minha opinião, é não "forçar a barra" e manter em vista que a prática da improvisação pode e deve manter seu caráter de jogo prazeroso, mesmo quando feita individualmente.


Para mim, esse momentos de jogar sozinho são minha yoga, minha meditação ativa, meu diálogo comigo mesmo, e também minha diversão e meu prazer. Que maravilhoso ter na improvisação em tap esse canal aberto comigo mesmo! Convido você a fazer também esta experiência!



Imagem: Rafael Matos

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